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| exemplar da biblioteca |
A tarefa do Desafio RD para o mês de fevereiro era ler “um livro que tenha um personagem com a inicial do nome igual ao seu”. No meu caso A, já que meu nome é Adriana. Li Saturday Night and Sunday Morning, considerado a obra prima do escritor inglês Alan Sillitoe e um retrato da juventude operária na Inglaterra nos anos 50. O livro segue a rotina do jovem Arthur Seaton, trabalhador de uma fábrica de bicicletas em Nottingham, cidade industrial no centro do país. Arthur trabalha muito, bebe mais ainda e se envolve com mulheres casadas, brigas e outras confusões. A história segue alguns meses na vida do rapaz, com todo aquele realismo social nu e cru que mostra a banalidade da vida doméstica, falta de perspectivas etc. Aliás esse autor é um dos representante do gênero literário que levou o nome de kitchen sink (=pia da cozinha).
O próprio escritor é de família operária de Nottingham e aos 14 anos começou a trabalhar na fábrica de bicicletas da Raleigh, onde seu pai trabalhava. Ele afirmou que a obra, apesar de não ser autobiográfica, era baseada em experiências de parentes, de amigos, e nas suas próprias, enfim... que nada ali era invenção e sim situações que tinham acontecido no seu círculo de relacionamentos. Uma coisa que eu achei super interessante é que o texto menciona em várias oportunidades a quantidade de cerveja que os personagens vão ingerindo. Então dá pra ter uma noção de “quanto as pessoas bebiam”. Lembro que uns 6 ou 7 anos atrás, o “pânico moral” na Inglaterra era justamente sobre isso: que a juventude estava virada num bando de alcoólatras. Lendo Saturday Night and Sunday Morning dá pra ver que faz muito tempo que encher a cara faz parte da rotina. Achei fascinante também ler um livro que foi escrito na época áurea dos “pubs” (bares).
Tomei conhecimento de Alan Sillitoe em 2003, depois de assitir o filme “The Loneliness of the long distance runner”. Gostei tanto que fui ler a respeito: vi que tinha sido baseado num conto desse escritor e acabei lendo vários dos seus contos, todos dentro desse estilo “pia da cozinha”. Se alguém tiver curiosidade em ver e ouvir o escritor: por ocasião da proibição de fumar em bares e restaurantes, que só chegou na Inglaterra em julho de 2007, a BBC publicou no seu website um depoimento de Alan Sillitoe sobre sua vida de fumante. Que começou cedo, aos 14 anos! O depoimento está aqui neste link da BBC. A primeira e as últimas fotos são dele; as demais são fotos dos anos 50. Alan Sillitoe faleceu em 2010, aos 82 anos. Acho que nenhuma das suas obras foi traduzida para o português.
Em fevereiro li também um outro livro cuja personagem principal começa com A: Amsterdam, autor Geert Mak, sobre a história da cidade. Apesar de já ter visitado Amsterdam rapidamente no passado (fiquei poucas horas), eu não sabia nada da sua história e a leitura foi muito interessante. Associações que eu fazia: perseguição aos judeus durante a ocupação nazista (por ter lido “o diário de Anne Frank” quando era adolescente), arte (Van Gogh, Rembrandt), canais, prostituição e maconha. Pois bem, admito a minha ignorância: não sabia que Amsterdam tinha se desenvolvido como um centro de comércio na idade média, por ser uma cidade portuária. A cidade experimentou um período de muita prosperidade no século 17, tanto que na primeira metade do século a população mais que triplicou. Aliás eu nem sabia que tinha porto em Amsterdam. Mas a construção da estação de trem descaracterizou bastante esse aspecto marítimo da cidade: inclusive alguns canais foram fechados, já que não tinham mais razão de ser.
Adorei o livro, que de tão fascinante me fez parar várias vezes a leitura e procurar mais informações sobre determinados detalhes na Wikipedia. Por exemplo, as viagens de Willem Barentsz. Até então eu só sabia de um grupo que tinha passado o inverno com o barco preso numa região polar: a tripulação do barco Endurance, liderada por Shackleton, que ficou presa na Antártica em 1915. Mas no século 16 um grupo de holandeses já tinha passado por experiência semelhante! Sendo que diferentemente da expedição de Shackleton, os holandeses não estavam planejando fazer isso. Gostei de ler também os pequenos detalhes que foram preservados em diários de moradores da cidade, ao longo dos séculos. O livro traz um panorama geral, salpicado com pequenas anedotas: uma leitura muito fluída e interessante. Aliás gostei tanto que pretendo ler novamente, antes de voltar a Amsterdam. E fiquei também com vontade de ler outros livros do mesmo escritor, e quem sabe alguma coisa do escritor holandês “Multatuli” (Eduard Dekker).


